Entrevista motivacional e adesão do paciente

Entenda como a entrevista motivacional pode ajudar o médico a identificar barreiras, trabalhar ambivalências e apoiar a adesão ao tratamento.Resumo do post:

Orientar uma mudança de comportamento é relativamente simples. Fazer com que ela seja incorporada à rotina do paciente é um dos grandes desafios da prática clínica.

Alimentação, atividade física, sono, uso de medicamentos, tabagismo e consumo de álcool são exemplos de comportamentos que podem fazer parte do plano terapêutico.

O paciente pode compreender a recomendação e até reconhecer sua importância, mas ainda assim encontrar dificuldades para colocá-la em prática.

Nesse contexto, a entrevista motivacional oferece ao médico ferramentas para compreender barreiras, explorar ambivalências e construir objetivos junto ao paciente.

Por que saber o que fazer nem sempre é suficiente?

Informação é importante, mas comportamento humano envolve outros componentes.

Um paciente com hipertensão pode saber que precisa reduzir o consumo de sódio. Uma pessoa com diabetes pode compreender a importância da atividade física. Um paciente com obesidade pode conhecer diversas recomendações alimentares.

Mesmo assim, diferentes barreiras podem interferir na mudança:

  • rotina profissional;
  • ambiente familiar;
  • experiências anteriores;
  • expectativas pouco realistas;
  • insegurança;
  • baixa percepção de capacidade;
  • dificuldades financeiras;
  • falta de apoio;
  • prioridades concorrentes.

Por isso, compreender o contexto em que o comportamento acontece pode ajudar o médico a construir uma orientação mais aplicável.

O que é entrevista motivacional?

A entrevista motivacional é uma abordagem de comunicação centrada na pessoa, utilizada para explorar motivação e trabalhar situações em que existe ambivalência diante de uma mudança.

Na consulta, ela pode ajudar o profissional a compreender como o próprio paciente percebe o problema, quais mudanças considera possíveis e quais fatores estão dificultando sua ação.

O objetivo é favorecer uma conversa colaborativa e aumentar a participação do paciente na construção do plano terapêutico.

Isso pode ser especialmente útil quando aparecem frases como:

“Eu sei que preciso fazer exercício, mas não consigo manter.”

“Quero melhorar minha alimentação, mas minha rotina não permite.”

“Eu deveria parar de fumar, só não sei se estou preparado agora.”

Essas falas trazem informações importantes sobre o estágio em que o paciente se encontra e podem abrir espaço para uma investigação mais profunda.

A ambivalência faz parte do processo de mudança

Querer mudar e, ao mesmo tempo, perceber razões para permanecer como está é uma experiência comum.

O paciente pode querer iniciar atividade física e considerar que não tem tempo.

Pode desejar perder peso e perceber a alimentação como uma importante fonte de conforto.

Pode reconhecer os benefícios de determinado tratamento e, ao mesmo tempo, se preocupar com seus efeitos adversos.

Quando essa ambivalência aparece, repetir a recomendação com maior intensidade nem sempre resolve o problema.

Perguntas podem ajudar a explorar esse conflito:

O que faria essa mudança ser importante para você?

O que torna essa mudança difícil hoje?

Que benefício você imagina que teria se conseguisse mudar?

O que você acredita que conseguiria começar agora?

A resposta pode revelar barreiras e motivações que dificilmente apareceriam em uma orientação unilateral.

Perguntas abertas ajudam o paciente a participar da consulta

Perguntas que permitem respostas mais amplas ajudam a compreender experiências, preocupações e prioridades.

Em vez de perguntar:

“Você está fazendo atividade física?”

o médico pode explorar:

“Como a atividade física está presente na sua rotina atualmente?”

Em vez de:

“Você está seguindo a dieta?”

pode perguntar:

“O que tem sido mais fácil e mais difícil na sua alimentação desde a última consulta?”

Outros exemplos incluem:

  • O que você gostaria de melhorar primeiro?
  • Qual é sua maior dificuldade neste momento?
  • O que já funcionou para você anteriormente?
  • Que mudança parece possível nesta semana?
  • De zero a dez, quanto essa mudança é importante para você?
  • O que faria esse número aumentar?

A forma como a pergunta é construída pode modificar a qualidade da informação obtida durante a consulta.

Escutar também é uma intervenção

A entrevista motivacional também utiliza recursos como escuta reflexiva, afirmações e sínteses do que foi relatado.

Uma resposta como:

“Parece que você reconhece a importância de se exercitar, mas sua rotina de trabalho está tornando difícil encontrar um horário.”

mostra ao paciente que sua dificuldade foi compreendida e ajuda a organizar o próprio raciocínio.

Resumir os pontos principais também pode ser útil:

“Você quer melhorar sua pressão arterial, percebe que precisa se movimentar mais e acredita que caminhar duas vezes durante a semana seria um começo possível.”

Esse tipo de comunicação ajuda a transformar uma recomendação ampla em uma decisão mais concreta.

Metas precisam caber na vida do paciente

Objetivos muito distantes da realidade podem aumentar a chance de abandono.

Para um paciente sedentário, prescrever cinco sessões semanais de exercício pode não ser o melhor primeiro passo se ele ainda não consegue encontrar espaço para uma única sessão.

Uma meta inicial poderia ser caminhar durante 15 minutos após o trabalho em dois dias da semana.

A partir daí, o comportamento pode ser acompanhado e progressivamente ajustado.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a:

  • alimentação;
  • sono;
  • consumo de álcool;
  • tabagismo;
  • atividade física;
  • uso de medicamentos;
  • gerenciamento do estresse.

A meta precisa ser suficientemente específica para que médico e paciente consigam avaliar posteriormente se ela foi realizada.

Quando o paciente não consegue cumprir a meta

Uma meta não cumprida oferece informação clínica.

Em vez de interpretar automaticamente o resultado como falta de interesse, é possível investigar o que aconteceu.

Algumas perguntas ajudam:

O que dificultou colocar o plano em prática?

Em algum momento você conseguiu fazer? O que estava diferente naquele dia?

Precisamos diminuir ou modificar a meta?

Existe outra estratégia que faria mais sentido para sua rotina?

Essa análise permite ajustar o plano e identificar obstáculos que não estavam claros anteriormente.

O acompanhamento da adesão passa a fazer parte de um processo contínuo de avaliação e adaptação.

A adesão pode ser construída ao longo das consultas

Mudanças relacionadas ao estilo de vida frequentemente acontecem de forma gradual.

Por isso, a consulta seguinte não precisa avaliar apenas exames ou sintomas.

Também pode investigar:

  • o que o paciente conseguiu mudar;
  • quais dificuldades surgiram;
  • quais estratégias funcionaram;
  • quais metas precisam ser revistas;
  • quanto o paciente se sente preparado para avançar;
  • qual será o próximo passo.

Esse acompanhamento permite que o plano terapêutico evolua junto com o paciente.

Comunicação também faz parte da prática clínica

Prescrever alimentação, exercício, sono ou medicamentos exige conhecimento técnico.

Transformar essas recomendações em comportamentos que possam ser incorporados à rotina também exige habilidades de comunicação e mudança comportamental.

A entrevista motivacional oferece ferramentas para tornar essa conversa mais estruturada, explorar ambivalências e construir metas compartilhadas.

Quando o médico compreende as barreiras, prioridades e possibilidades do paciente, consegue construir um plano terapêutico mais individualizado e acompanhar a adesão de maneira mais consistente.

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