A prática regular de exercício está associada a importantes benefícios para a saúde cardiovascular. Ainda assim, determinadas condições cardíacas podem aumentar o risco de eventos graves durante esforços intensos.
A morte súbita relacionada ao esporte é um evento raro, mas seu impacto é significativo, especialmente quando ocorre em pessoas aparentemente saudáveis.
Em alguns casos, uma doença cardiovascular ainda não diagnosticada pode estar presente antes do evento.
Por isso, reconhecer sintomas de alerta, investigar o histórico pessoal e familiar e realizar uma avaliação compatível com o perfil do praticante são etapas importantes da medicina do exercício.
O que significa morte súbita relacionada ao esporte?
A morte súbita cardíaca corresponde a um óbito inesperado de causa cardiovascular que ocorre em um intervalo curto após o início dos sintomas.
Quando o evento acontece durante ou próximo à prática de exercício, diferentes mecanismos podem estar envolvidos.
A atividade física intensa provoca alterações fisiológicas importantes, como aumento da frequência cardíaca, pressão arterial, débito cardíaco e demanda metabólica.
Em pessoas saudáveis, essas respostas fazem parte da adaptação normal ao esforço.
Em indivíduos com determinadas doenças cardíacas, porém, o exercício intenso pode funcionar como um gatilho para arritmias ou outros eventos cardiovasculares.
Para compreender melhor essas respostas normais ao esforço, abordamos o tema em nosso conteúdo sobre fisiologia do exercício.
As causas variam de acordo com a idade
A causa de uma morte súbita relacionada ao exercício pode mudar conforme a faixa etária e as características do indivíduo.
Em atletas mais jovens, a investigação costuma considerar condições como:
- cardiomiopatias;
- doenças elétricas hereditárias;
- anomalias congênitas das artérias coronárias;
- miocardite;
- determinadas cardiopatias congênitas;
- distúrbios do ritmo cardíaco.
Em praticantes de meia-idade e mais velhos, a doença arterial coronariana passa a ocupar um papel mais relevante.
Isso reforça a necessidade de individualizar a avaliação.
Um atleta jovem competitivo, um adulto sedentário que pretende iniciar corrida intensa e uma pessoa de 60 anos que pratica ciclismo apresentam perfis de risco diferentes.
Quais sintomas devem chamar atenção?
Alguns sintomas associados ao exercício justificam investigação cardiovascular antes de manter ou aumentar a intensidade da prática.
Entre eles:
- desmaio durante o esforço;
- sensação de quase desmaio durante exercício;
- dor ou pressão no peito relacionada ao esforço;
- palpitações recorrentes;
- falta de ar desproporcional ao exercício realizado;
- redução inexplicada da capacidade física;
- tontura importante durante atividade;
- sintomas cardiovasculares novos durante ou após o esforço.
O contexto em que esses sintomas aparecem é importante.
Uma síncope ocorrida durante exercício, por exemplo, merece uma avaliação diferente de um episódio típico de resposta vasovagal em repouso.
Também devem ser considerados frequência, duração, fatores desencadeantes e presença de outros sintomas associados.
O histórico familiar pode revelar informações importantes
Algumas condições associadas à morte súbita apresentam componente hereditário.
Por isso, a história familiar faz parte da avaliação cardiovascular.
Perguntas importantes incluem:
Existe histórico de morte súbita ou inexplicada em familiares jovens?
Algum familiar recebeu diagnóstico de cardiomiopatia?
Existe histórico de arritmias hereditárias?
Alguém da família utiliza desfibrilador implantável?
Existem casos de morte inexplicada durante exercício ou durante o sono?
Também é importante investigar diagnósticos conhecidos de doenças cardiovasculares na família.
Uma história familiar relevante pode modificar a necessidade de investigação complementar mesmo em uma pessoa sem sintomas.
O que avaliar antes da prática esportiva?
A avaliação pré-participação busca identificar condições que possam aumentar o risco associado ao exercício.
Ela pode começar por uma história clínica estruturada.
Entre os pontos avaliados estão:
- sintomas durante exercício;
- doenças cardiovasculares conhecidas;
- pressão arterial;
- uso de medicamentos;
- histórico familiar;
- prática esportiva atual;
- intensidade do treinamento;
- objetivos esportivos;
- fatores de risco cardiovascular;
- uso de substâncias ou estimulantes.
O exame físico também pode fornecer informações relevantes.
Dependendo da idade, do histórico, dos sintomas, da modalidade esportiva e do protocolo utilizado, exames complementares podem ser indicados.
Qual é o papel do eletrocardiograma?
O eletrocardiograma pode identificar alterações relacionadas a algumas cardiomiopatias, doenças elétricas e distúrbios do ritmo.
Sua utilização em programas de rastreamento varia entre diferentes países e sociedades médicas.
Protocolos brasileiros e europeus atribuem papel relevante ao ECG na avaliação de atletas, enquanto outras estratégias internacionais enfatizam inicialmente história clínica e exame físico, com utilização do ECG de acordo com o contexto e os recursos disponíveis.
Um ponto importante é que o eletrocardiograma de uma pessoa treinada pode apresentar adaptações fisiológicas relacionadas ao exercício.
Por isso, sua interpretação deve considerar critérios específicos para atletas e o contexto clínico.
Quando a investigação precisa avançar?
A presença de sintomas, alterações no exame físico, histórico familiar relevante ou achados no eletrocardiograma pode indicar necessidade de investigação adicional.
Conforme a hipótese clínica, podem ser utilizados exames como:
- ecocardiograma;
- teste de exercício;
- teste cardiopulmonar;
- monitorização eletrocardiográfica;
- ressonância magnética cardíaca;
- tomografia das artérias coronárias;
- investigação genética em situações selecionadas.
A escolha depende da condição que está sendo investigada.
Solicitar todos os exames para todos os praticantes pode gerar achados incidentais e investigações desnecessárias. O objetivo é selecionar a avaliação de acordo com risco, sintomas e contexto.
Atletas mais velhos apresentam outro perfil de risco
Com o avanço da idade, a doença arterial coronariana ganha maior relevância entre as causas de eventos cardiovasculares relacionados ao exercício.
Por isso, a avaliação de adultos que desejam iniciar ou intensificar exercícios também pode considerar:
- hipertensão;
- diabetes;
- dislipidemia;
- tabagismo;
- obesidade;
- histórico familiar;
- sintomas durante esforço;
- nível prévio de atividade física.
Uma pessoa sedentária com múltiplos fatores de risco que decide iniciar atividade vigorosa precisa de uma abordagem diferente daquela utilizada para alguém que pratica exercício regularmente há anos.
A avaliação desses fatores foi aprofundada em nosso conteúdo sobre doença cardiovascular e Medicina do Estilo de Vida.
Ter uma condição cardiovascular não significa automaticamente abandonar o exercício
O diagnóstico de uma doença cardíaca precisa ser analisado de forma individualizada.
Características da doença, sintomas, risco de arritmia, modalidade esportiva, intensidade e resposta ao exercício fazem parte dessa decisão.
Em alguns pacientes pode ser necessário modificar intensidade ou modalidade.
Em outros, a prática pode continuar após avaliação e acompanhamento adequados.
A decisão deve considerar benefícios, riscos, características clínicas e objetivos do paciente.
Prescrição individualizada também faz parte da prevenção
A orientação de exercício precisa considerar a condição clínica e o nível de treinamento.
Volume, intensidade, modalidade e progressão precisam ser compatíveis com a capacidade atual do paciente.
Isso é especialmente importante em pessoas com:
- doenças cardiovasculares;
- diabetes;
- hipertensão;
- obesidade;
- doença renal;
- sintomas durante esforço;
- histórico prolongado de sedentarismo.
Já abordamos os principais elementos dessa individualização no conteúdo sobre prescrição de exercício para pacientes com DCNTs.
A prevenção também envolve resposta rápida a uma emergência
Mesmo uma avaliação pré-participação adequada não consegue identificar ou prevenir todos os casos de parada cardíaca súbita.
Por isso, ambientes esportivos também precisam estar preparados para responder a uma emergência.
Reconhecimento rápido da parada cardíaca, acionamento do serviço de emergência, início precoce da ressuscitação cardiopulmonar e acesso a um desfibrilador externo automático podem modificar significativamente o desfecho.
A disponibilidade de um plano de emergência e acesso rápido ao DEA são componentes importantes da segurança esportiva.
Exercício continua sendo uma ferramenta importante para a saúde
A possibilidade de eventos cardiovasculares durante o esporte não reduz a importância da atividade física na prevenção e no manejo de doenças crônicas.
Para a maioria das pessoas, os benefícios da prática regular são amplos.
O papel da avaliação clínica é identificar indivíduos que apresentam características que exigem investigação, acompanhamento ou adaptação da prática.
Sintomas durante esforço, histórico familiar relevante e fatores de risco cardiovascular oferecem informações que ajudam o médico a orientar o exercício com maior segurança.
Da avaliação ao acompanhamento
A avaliação esportiva não precisa ser vista como um evento isolado.
Mudanças na saúde, surgimento de sintomas, aumento importante da intensidade do treinamento ou diagnóstico de uma nova condição podem justificar reavaliação.
O acompanhamento permite observar:
- sintomas;
- evolução da capacidade física;
- resposta ao treinamento;
- fatores de risco cardiovascular;
- novas doenças;
- alterações nos medicamentos;
- objetivos esportivos.
Essa visão longitudinal permite integrar segurança e benefício dentro da prática esportiva.
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Atividade física, avaliação clínica, prevenção cardiovascular e manejo das doenças crônicas fazem parte de uma abordagem integrada da saúde.
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